Luciana Genro ao lado dos professores em Guarulhos e todos os trabalhadores de São Paulo

lg1

No último dia 27 de março tivemos a presença da grande companheira Luciana Genro no RE (Reunião dos Representantes de Escola) da Subsede da Apeoesp Guarulhos e região.

Além de ter sido Deputada Estadual por dois mandatos e Federal por outros dois, Luciana ajudou a fundar o Emancipa – rede de cursinhos populares totalmente gratuita que luta por um outro tipo de educação, sobretudo a pré-universitária -, foi a primeira líder da bancada do Partido Socialismo e Liberdade (PSoL), partido que ajudou a fundar após ser expulsa do PT por votar contra a Reforma da Previdência (aquela paga com dinheiro do mensalão) e cobrar coerência desse partido que em 2002 não estava do lado dos trabalhadores, mas sim dos banqueiros, empreiteiros e toda classe patronal.

Luciana Genro e o PSoL reafirmam de que lado estão: o dos trabalhadores! Ao estar numa reunião com mais de 200 professores para debater conjuntura nacional e internacional, as crises, além de, claro, pautas específicas da carreira docente, Luciana parafraseando o velho Marx afirmou que “temos que estar todos juntos! Somente com todos os trabalhadores lutando, poderemos derrotar esse sistema tão injusto”.

Sistema esse que quer excluir não só os trabalhadores, mas também os alunos. Luciana mudou-se de Porto Alegre para São Paulo, pois afirmou que aqui nesse estado está o centro da contradição. Tanto na cidade de São Paulo (onde também participou de algumas reuniões com professores) como em Guarulhos os prefeitos são petistas e sabemos perfeitamente, isto é, pela experiência no governo federal e tantos anos de prefeitura petista em Guarulhos, que estes governos não são um governo de esquerda.

Como professores, temos uma grande tarefa que não é só a luta pelo piso, pela carreira, pelo fim das categorias (a tão chamada de “sopa de letrinhas”), pelo reajuste já, mas a luta contra o Pimesp. Sistema que exclui cada vez mais o aluno provindo da escola pública e a transforma em dados, números “para inglês ver”. Já temos a adesão de Luciana Genro e seu partido, que aliás em 13 de março desse ano fez uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa de São Paulo através do mandato do Professor Carlos Giannazi contra mais esse decreto do nosso excelentíssimo Secretário da Educação de São Paulo Herman Voorwald.

A presença da deputada do PSoL – que para nós seria um ótimo nome para as corrida presidencial do ano que vem – nos dá orgulho de ter esse partido como parceiro nas lutas, pois o Educadores Juntos também acredita que onde estiver o trabalhador lá deveremos estar. Somos uma maioria que, se nos unirmos podemos mudar o mundo!

lg2

Leave a Comment

Filed under política

Marco Feliciano atrapalha nossas aulas

por Bruno Magalhães*
 
Manifestação contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, deputado Marcos Feliciano (São Paulo, março de 2013)
 
 
O deputado estadual e pastor Marco Feliciano (PSC-RJ) tem atrapalhado minhas aulas. Ele não faz idéia que eu existo, mas ao mesmo tempo não larga do meu pé. Nos últimos dias, toda vez que entro em uma sala de aula para ensinar História, seu fantasma aparece pra mim, dá uma risadinha e diz: “quis estudar, se deu mal!”.
Não acredito em fantasmas nem nada disso, mas não tiro isso da cabeça. Levei longos anos pra me formar em História, e no caso da História Antiga, quase endoideci pra tentar entender como se monta um quebra-cabeça onde falta a maioria das peças. E meus alunos de 1º ano, jovens de 15 ou 16 anos, compartilham comigo dessa crise na tentativa de entender as primeiras civilizações, das quais sobrou tanto e ao mesmo tempo tão pouco.
Pra além do debate entre evolucionismo e criacionismo (que é óbvio do ponto de vista científico), nos cabe estudar o que a humanidade anda fazendo pelo planeta nesses anos de ocupação.  Não tenho a pretensão de explicar o sentido da vida humana, nem o que acontece depois da morte, não faço idéia de nada disso, nossa humilde tarefa é olhar as evidências que existem sobre o passado e revirá-las pra entender o que teria acontecido. É um trabalho simples e que infelizmente paga mal.
O deputado-pastor é membro da Assembléia de Deus, igreja pentecostal fundada no Brasil por missionários escandinavos, que possui pastores como Silas Malafaia, Samuel Ferreira e tantos outros que tem se destacado contra os direitos das mulheres e dos homossexuais.  Seus membros defendem a submissão das mulheres aos homens, vêem a homossexualidade como um desvio pecaminoso e acreditam literalmente em Adão e Eva, apesar das evidências científicas. Alguns anos atrás, as mulheres dessa igreja eram proibidas inclusive de se depilar, cortar os cabelos ou usar calças.
Mas a Assembléia de Deus não é o problema, toda religião tem o direito de “achar” o que quiser. Não me importa se o transe religioso é mediúnico, fruto de um orixá, ou se é originado no “Espírito Santo”, cada um pode fazer o que quiser em seu terreiro ou igreja. Meu problema é o fantasma de Marco Feliciano.
Porque? Por que Marco Feliciano não é só um pastor. Ele é também deputado, e como deputado-pastor ele pretende adequar o mundo segundo a visão de sua igreja, que representa menos de 5% da população brasileira.  Esse pastor, eleito deputado, tornou-se presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, cujo objetivo é justamente debater e fiscalizar questões referentes aos direitos humanos.
Aí que está o problema. Uma das tarefas dessa Comissão é a preservação e proteção das culturas populares e étnicas do País. Logo, a “preservação” e proteção” das culturas de origem africana também estão a cargo desta comissão. Agora vejam o que disse Marco Feliciano sobre a África no Twitter:
 
“Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss”
 
Primeiro não é fato que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé” (pergunte para algum paleontólogo). Em segundo lugar, a “maldição da África” vem na verdade dos séculos de colonialismo e imperialismo, quando europeus pilharam e repartiram o continente africano em nome do “deus” cristão ou da “civilização” ocidental, um processo bem mais recente que aqueles retratados na Bíblia.
Pior ainda, o sujeito é contra a “polêmica”. Como se ensina ou se estuda História sem polêmica?
E é por isso que Marco Feliciano me atrapalha. Me mato pra tentar explicar e debater os processos históricos e o cara me fala uma asneira dessas, sem ter lido qualquer livro sério sobre o assunto.  Diz que os problemas da África são fruto de uma “maldição” e ainda por cima ganha um dinheiro que eu nunca vou ver.
Tá lá escrito em Gênesis (capítulo 9, versículos 18-29): Depois do dilúvio, Noé planta uma vinha, bebe do vinho, fica bêbado e tira a roupa em plena tenda. Aí seu filho Cam acha graça e conta para seus irmãos. Depois que se recupera, Noé fica sabendo do vexame e amaldiçoa a linhagem de Cam, que mitologicamente daria origem aos africanos.
Um deputado usar esse mito pra explicar a situação do continente africano me faz repensar a opção de ser professor de História. Faço o que? Apresento algumas evidências? Convido ele pra uma aula? Peço pra ele assistir mais Discovery Channel? Acho que nada disso adiantaria, o papel que ele exerce é muito mais lucrativo.
Parece absurdo, mas o cara ainda é da base política do governo Dilma, e seu partido escolheu esse cargo porque partidos de “esquerda”, como PT e PCdoB, simplesmente não deram importância à Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Talvez os poucos recursos destinados à Comissão digam algo sobre isso.
É bom notar que Marco Feliciano não representa, graças a Deus, a maioria dos evangélicos, e diversas igrejas protestantes históricas têm severas críticas aos seus métodos e crenças. Em mais de uma vez, seu proselitismo místico foi desmascarado por suas próprias contradições, demonstradas fartamente em vídeos (dêem uma olhada nesse exemplo http://www.youtube.com/watch?v=iUscavZL55w).
Enfim, Marco Feliciano me assombra, e enquanto ele for deputado vou me preocupar com o ensino da História, seja Antiga ou Contemporânea. Se você não o conhece, pesquise sobre o honorável deputado, e veja por você mesmo. Deus nos proteja!
 
 
*Bruno Magalhães, formado em História pela Universidade de São Paulo, é professor efetivo e leciona a disciplina de História na Escola Estadual Prof. Carlos Aires no Grajaú, Diretoria de Ensino Sul. (post originalmente publicado em http://historiaprofbruno.blogspot.com.br/2013/03/marco-feliciano-atrapalha-minhas-aulas.html)

Leave a Comment

Filed under História, política

Ética e Política

por Prof. Tiago Pereira*

A característica singular do ser humano, e o que diferencia de todos os outros seres vivos, está ratificada no fato dele ser dotado de razão e de vontade, com liberdade para tomar decisões. A eticidade, entendida como capacidade para realizar o bem, se confirma pelo fato de o homem em sua consciência poder antever os resultados de seus atos. Isso não só o introduz no mundo da intencionalidade, como também o faz um ser de projeto, ou seja, um ser que pela atividade intelectual, não apenas mora no presente, mas em sua consciência vive num futuro virtual. O homem é, portanto, um ser moral, pois conhece o bem o fim, daquilo que  espontaneamente  deseja e deliberadamente busca. È um ser que  livremente escolhe, sendo possuidor de razão, liberdade e segundo alguns filósofos de vocação inata para o Bem e a finalidade do Bem e da sua busca é poder ter uma vida feliz. Felicidade é partilhada na vida social e concretizada na vida dos indivíduos.

No entanto, amiúde os homens são confrontados com situações e circunstâncias em que suas decisões interferirão na vida de outras pessoas. Esse processo, inaugura outra dimensão do homem – a política. O homem, como afirmava Aristóteles, é um ser político – zoon politikón – (Aristóteles: 2007, p.13) e a  coexistência e coabitação em uma comunidade/sociedade o leva a se defrontar com normas e regras que organizarão as relações concretas, pessoais e impessoais, entre pessoas, instituições e organizações. No processo de construção dessas regras a política assume a sua função que é própria, ou seja de ser a ética da vida social, ou pública. Por isso, descobriremos que é impossível dissociar o conceito de política do conceito de ética.

Ser o zoon politicon, não significa apenas viver em sociedade e participar da vida da polis. Viver em sociedade não é apenas estar na sociedade, mas relacionar-se com os outros; viver em sociedade é conviver. A diversidade das relações que nascem dessa convivência, tais como trabalho, família, Estado, religião, faz da ética a ciência fundamental da organização e da sobrevivência humana em sociedade. A ordem social é mantida pela ética. Afirma o estagirita:    “Sabemos que toda cidade é uma espécie de associação e que toda associação se forma tendo por alvo alguma bem; porque o homem só trabalha pelo que ele tem em conta de um bem. Todas as sociedades, pois, se propõem qualquer lucro, sobretudo a mais importante delas, pois que visa um bem maior, envolvendo todas as demais: a cidade ou sociedade política” (Pol. I, c. 1, § 1).

No o primeiro capítulo de A Política, afirma Aristóteles: “Sabemos que toda a cidade é uma espécie de associação, e que toda a associação se forma almejando um bem, pois o homem trabalha somente pelo que ele considera um bem.” (Aristóteles: 2007, p.13). Mesmo entre os filósofos contratualistas, que criticam a formação da sociedade civil, ainda assim, o homem uma vês em sociedade deve fazer das vida comum e do contrato social que nasce dessa comunidade os meios para garantia de uma vida solidária, que promova a defesa da vida, da dignidade da pessoa humana e também do ethos – a morada do homem – . Neste sentido, a  eticidade deve ser entendida não apenas como uma qualidade do ato humano livremente exercido; sendo positiva – boa – quando pode ajustar-se à norma que o ordena como ser racional e com tendência a buscar ao bem (ainda que seja o de si mesmo); ou sendo negativa – má – quando atua irracionalmente contra a norma e afronta os valores que o faa justamente humano, pois os apreende no exercício da vida social.

O Ethos, a Consciência Ética e por fim a Ética nascem de um longo processo histórico que evidencia que o egoísmo e o isolamento, destroem não somente a vida social mas também o indivíduo que se constrói pela sociabilidade. Uma vez construídos eles  se impõe aos indivíduos como algo exterior (heteronomia) ou se engendram em suja construção individual (autonomia)  lhes outorgando um dever. Neste momento, a Ética, (embora seja desde sempre uma das ciências práticas) deixa de ser tão teórica e assume o papel de uma disciplina normativa que tem como objetivo orientar as ações humanas em vista do bem (deontologia).

Ética, portanto,  é a ciência do agir humano. Ela não se preocupa com aquilo que os homens são, antes aponta e preocupa-se com o seu devir.

No entanto, parece-nos comum, ouvirmos que a ética e os valores estão em crise. Tal Crise atingiria a escola, a família, a sociedade, a religião, o Estado e seus organismos. Diante de tantos erros, egoísmo, corrupção, injustiça… O Estado, que deveria ser exemplo de eticidade( ele deveria ser o protetor do ethos), é taxado de corrupto pelos meios de comunicação, pela sociedade cívil e pelo cidadão comum que coccideamente se vê diante de “vazamentos” de imagens e gravações que mostram membros do alto escalão de governos de municípios, estados e da União envolvidos em crimes de corrupção ativa e passiva. Parece-nos que ética e política se tornam dimensões opostas da vida social. No entanto, já afirmamos que tais conceitos não estão dissociados, antes, segundo o Estagerita,   a Ética é a doutrina moral individual, e a política a doutrina moral social. Pois qual é a teleologia da política se não o bem comum? Mas diante da ausência desse bem, questionamos: Onde está a ética quando olhamos para nossos parlamentos, tribunais e governantes?

 

Ética e a Vida Pública Hoje

 

O advento da modernidade, que basicamente se fundamenta na racionalização, na subjetivação e no liberalismo econômico, tem sido usado para fundamentar o processo de fragmentação dos valores éticos e morais e a crescente corrupção nos governos. Os interesses privados se colocam acima dos interesses públicos, com a “naturalidade” de se carregar uma bolsa, só que cheia de dinheiro. Homens oram “agradecendo” a Deus pelo dinheiro da corrupção, outros escondem dinheiro nas cuecas e parlamentares festejam a absolvição de corruptos, “perdoados” por seus pares em votações secretas.  As leis morais passam a ser as leis do mercado, o homem e o Bem Comum são suprimidos em vista do bem de mercado.

A fragmentação de paradigmas estabelecidos, expõe a sociedade e ao individuo a uma realidade, onde prevalece a lei do mais forte (economicamente), e o mais fraco, alienado politicamente nem percebe seu fracasso social, se contentando em ser apenas mais um operário que consegue, graças ao credito fácil, aproveitar um pouco das esmolas do capitalismo. Nesse contexto prevalecem governos que, por interesses econômicos, se esquecem dos mais pobres para se aliar a uma elite que mantém sua riqueza à custa de pobres cada vez mais pobres, não importando os meios que utilizarão para alcançar tal fim. Parece-nos que tal cena levaria Hobbes a se remoer no túmulo, por ver seu modelo de Estado falido, vendido ao capitalismo.

No entanto, mesmo com as transformações causadas pela modernidade, pelo capitalismo, pela corrupção o Bem não mudou, e é dever do homem e principalmente do Educador continuar exercitando esse Bem – intelectualmente e na sua prática – principalmente pelo exercício político. Os indivíduos e a sociedade buscam no Estado as garantias de seus direitos que inclui a vida, a propriedade, a liberdade O Estado tem por finalidade agir em defesa do homem, principalmente dos mais fracos e vulneráveis – as chamadas mimorias -.  O poder que a ele é confiado (poder público) tem como finalidade, não os interesses daquele que governa, muito menos de grupos econômicos poderosos,  mas de todos os cidadãos que o elegeu, ou que permitem que ele fique no poder.

Existe, pois um fim na vida política, e esse não muda, “o bem em política é justiça, isto é, a utilidade geral” (Aristóteles, Pol. III, c. 7, § 1). Nesse contexto a luta por esse Bem, deve fazer parte de nosso cotidiano. Não é correto ficarmos calados diante da injustiça que assola nosso povo, nossa comunidade e nossa família. O lucro que domina as relações sociais, deve ser vencido pela força das consciências individuais que entendem que a vida só será boa se todos agirem em nome do Bem e que a desigualdade social só será vencida com a justa distribuição de renda e com a justiça social. A violência do indivíduo acabará quando acabara violência do sistema. A Paz é fruto da Justiça!

Nesse contexto, os Movimentos Sociais, devem e podem contribuir para formar um novo modelo de Estado que não apenas exerça a função de gerir as relações entre os homens, para evitar que um prejudique o outro ou para facilitar as relações comerciais, mas que  efetivamente cumpra com seu dever ontológico de levar ao homem não só viver, mas viver feliz.  ”O que constitui a cidade não é o fato de os homens não se prejudicarem uns aos outros, embora tais condições sejam necessárias para que a cidade exista; mas, por si só elas não fazem o característico essencial da cidade… É a amizade que conduz os homens à vida social. O escopo do Estado é a felicidade na vida” (Pol. III, c. 5, §13 – 14).

Portanto, todos os cidadãos e principalmente de nossos governantes devem assumir um comportamento ético. E ética como já afirmamos, não pertence ao mundo da teoria, pertence à prática. Se a ética requer a vida ativa – que é o que caracteriza a própria condição humana – o indivíduo atua como ser ético perante os outros. Não se pode ser ético quando não se convive (na solidão); é, portanto, a esfera pública e coletiva que possibilita a expressão da eticidade. Se, por sua vez, a vida boa conduz naturalmente o homem para a felicidade, e se a vida boa é a vida digna, se faz necessário que todos os homens empenhem-se de comum acordo para que suas ações individuais tomadas em relação aos outros resultem em um bem para todos. Além disso, as virtudes do comportamento traduzem-se no hábito, na vivencia e na pratica do cotidiano; e não no postulado de intenções. Será, portanto, necessário percorrer com ética a própria vida, posto que é mais trabalhoso agir pelo bem do que dizê-lo.

*Prof. Tiago Augusto Soares Pereira – Licenciado em Filosofia, Licenciado em Ciências Sociais – Antropologia, Ciência Política e Sociologia, Licenciado em Pedagogia. Professor Titular de Filosofia na cidade de Pederneiras – SEE/SP

Leave a Comment

Filed under Filosofia

Com que roupa, eu vou?

roupa menina

Início de ano escolar, algumas coisas já fazem parte da rotina de estudantes e professorxs, seja das escolas públicas ou privadas. Entre planejamentos e regras de comportamento, uma coisa sempre mexe com os ânimos: A roupa das alunas.

Todx professor já presenciou uma discussão desta pelo menos uma vez na vida. Afinal, como é possível querer que os meninos aprendam se ao seu lado está sentada uma menina de shortinho? Óbvio que não dá. Então é preciso que as meninas se apresentem para as aulas as mais cobertas possíveis. Cada espaço social tem seu padrão de roupas apropriadas, não é mesmo? Mas roupas femininas não são apropriadas ao ambiente escolar.

Vivemos em um país tropical, com temperaturas que durante o ano letivo chegam a 40º em local aberto. Imagine agora 40 adolescentes em uma sala de aula sem ventilador e, muito menos, ar condicionado? Talvez isso não importe muito, pois, na visão de muitos, basta o esforço individual para superar qualquer barreira.

Mas, voltando ao que importa. Sob alegação de preservar a própria aluna, as escolas proíbem o uso de regatas, shorts, calças consideradas “justas” ou “coladas”, e muitas vezes saias. Em escolas religiosas, chega-se ao absurdo de proibir o uso de maquiagens, esmaltes ou adereços (colares, pulseiras) e, pasmem, chinelos de dedo e sandálias “rasteirinha”.

Com tal atitude, além de ferir a liberdade individual, as escolas estão culpabilizando as próprias meninas por serem vítimas de violência, tais como comentários, assédios ou olhares maledicentes, e até mesmo, estupro. Afinal, pra que outro motivo ela usa shortinho se não para provocar os garotos? Que aliás, nesta idade estão com os hormônios a flor da pele. Então elas que se cuidem. Comentários como estes são muito comuns em ambientes escolares.

Quanto aos meninos, estes não precisam de proibições, afinal não usam nada que possa ser considerado provocante aos olhos das meninas. Então, obviamente elas usam shorts e decotes para provocar garotos apenas por serem “assanhadas”. E muitas vezes, claro, o exemplo vem de casa, “as mães que dão esse exemplo”. E se ouvem funk, então, pior ainda. “Só vão na escola por causa dos meninos, não querem aprender”.  É o mito do pecado original contado todos os dias nas nossas escolas, com centenas de pequenas Evas e pequenos Adãos.

Ao repetir esse discurso, xs educadorxs ignoram o bombardeio midiático que sexualiza nossas crianças cada vez mais cedo – afinal, as escolas adoram incentivar as pequenas princesas Disney, que atendem a um padrão de beleza inatingível e uma submissão plena ao seu príncipe – ; Ignoram o mundo do consumo e das propagandas que impõe padrões de moda, de comportamento, de sexualidade e de relacionamento.

Em 5 minutos diante da TV ou das vitrines de um shopping, percebemos que a ideia da mulher linda, gostosa, magra, semi-nua e submissa que está sempre querendo agradar o seu homem. Este, pelo contrário, deve aproveitar a farta oferta de “mulheres-objeto”. Nesse contexto, é inadmissível aos olhos dos conservadores, entender que uma mulher pode estar com um shortinho e uma mini-blusa apenas porque se sente bem assim, se sente confortável, se sente bonita e feliz, e não importa quantos moralistas irão olhar pra ela no caminho.

Com este discurso, a escola se priva do papel de promover uma educação libertadora, onde meninas entendam que tem o direito de ir e vir com a roupa que quiserem, pois tem o direito de serem respeitadas porque são mulheres. As escolas não ensinam que as roupas não precisam ser usadas para agradar os outros, mas para agradar a si.

E, pior do que isso também não ensinam aos alunos que as mulheres devem ser respeitadas. Não ensinam que não podem passar a mão na perna de uma menina simplesmente porque ela foi de shorts à escola. Também não ensinam que não podem chamá-la de “gostosa” apenas porque ela está com uma blusa decotada.

Enquanto isso, se um garoto vai à escola vestido de menina, é hostilizado por colegas e professores por também não vestir-se adequadamente. Ao questionar os responsáveis pedagógicos, muitas vezes a resposta é que “a escola já tolera os gays. Então contente-s e em ser gay e não tente ser uma mulher.” Aos olhos destes educadores moralistas, deve ser muito vergonhoso ser mulher, não é mesmo?

Muitas escolas tentam fugir deste problema adotando o uso do uniforme, que aliás é proibido por lei (A lei paulista n.º 3913/83 de 14/11/83 proíbe os estabelecimentos oficiais de ensino de obrigar os alunos ao uso do uniforme escolar). Muitas secretarias de educação inclusive distribuem o uniforme escolar. Preferem cobrir o problema do que discuti-lo abertamente.

Mas os problemas não nascem na escola. As relações de gênero não fazem parte do conteúdo nos cursos de licenciatura, e como consequência, a quase totalidade dos professores sai da Universidade sem ter debatido em uma aula sequer as relações de gênero no ambiente escolar. As secretarias de educação também não criam espaços de formação para os professores, nem criam iniciativas (materiais, projetos, espaços) que promovam a igualdade de gênero nas escolas. Temas como identidade de gênero, direito ao corpo, direito à sexualidade, violência sexista e homofobia passam longe dos materiais didáticos. O tema não faz parte sequer dos Parâmetros curriculares nacionais.

Outro problema é que nossas escolas, diferente do que diz a lei, não são totalmente laicas. Muitas vezes valores e regras religiosas, carregadas de preconceito, são repetidos na escola como se fossem leis.

Vivemos em tempos de grandes lutas por direitos. Lutamos para sermos respeitadas independente de como nos vestimos, assim como lutamos pelo direito de amar sem medo da violência, seja ela homofóbica ou sexista; E em tempos de luta, a cada dia mais professoras,  estudantes e entidades estudantis se organizam para pautar estas questões cotidianamente na escola. Nós, Educadoras Juntas, somos parte desta luta.

Leave a Comment

Filed under Educadoras Juntas

Categoria “O” – Como funciona

1-     Quais são as regras para contratação do professor Categoria “O”?

Tendo sido aprovado no processo seletivo simplificado, o professor é contratado por um período de 12 meses (em alguns casos, como na atribuição de aulas no meio do ano, o contrato pode ser prorrogado até o final do ano letivo). Após o fim do contrato, o professor passa pela quarentena (quarenta dias sem possibilidade de novo contrato).

2-     Como funciona o processo de atribuição de aulas?

Após a escolha de aulas de professores efetivos e estáveis (categorias: “F”, “P” e “N”), as aulas que sobram  são atribuídas entre a categoria “O”, seguindo a ordem de classificação da Diretoria de Ensino. O professor pode escolher aulas em até três Unidades Escolares (UE) diferentes e terá a vida funcional organizada pela escola onde tem o maior número de aulas (sua “escola-sede”).

Imagem

Vamos Juntos lutar por uma educação emancipadora, pois só assim poderemos lutar por uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos e todas!

Leave a Comment

Filed under Categoria "O"

Governo de São Paulo não cumpre a lei e desrespeita os professores!

Começa o ano letivo e, mais uma vez, o governo do estado de São Paulo desrespeita a categoria dos professores. Através de um processo de atribuição bastante desorganizado, boa parte dos novos professores é contratada em uma situação precária e injusta. Apesar da falta de professores nas escolas da rede e da realização de provas de seleção, os profissionais da “categoria O” (todos os contratados a partir de 2007) não têm aulas garantidas nem os mesmos direitos trabalhistas dos professores concursados (efetivos) ou contratados antes de 2007 (estáveis).

Se isso não bastasse, o governo estadual descumpre a Lei Nacional do Piso (11.738/08) que garante um terço da jornada de trabalho fora da sala de aula, permitindo maior planejamento pedagógico. Com poucos espaços de preparação, a qualidade da educação se compromete e os professores se desgastam ainda mais, aumentando o número de professores doentes devido ao trabalho.

Denunciamos os absurdos na educação de São Paulo! A qualidade da educação depende do financiamento e da valorização das escolas e dos professores. Só vamos conquistar melhorias se nos unirmos, nas escolas e no sindicato, para as lutas que se aproximam em 2013.

É preciso acabar com a divisão dos professores em diversas categorias, que prejudica e retira direitos da categoria. O Bloco de Oposição da Apeoesp defende direitos e salários iguais para o mesmo trabalho e função.

 

Leave a Comment

Filed under Bloco de Oposição