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Marco Feliciano atrapalha nossas aulas

por Bruno Magalhães*
 
Manifestação contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, deputado Marcos Feliciano (São Paulo, março de 2013)
 
 
O deputado estadual e pastor Marco Feliciano (PSC-RJ) tem atrapalhado minhas aulas. Ele não faz idéia que eu existo, mas ao mesmo tempo não larga do meu pé. Nos últimos dias, toda vez que entro em uma sala de aula para ensinar História, seu fantasma aparece pra mim, dá uma risadinha e diz: “quis estudar, se deu mal!”.
Não acredito em fantasmas nem nada disso, mas não tiro isso da cabeça. Levei longos anos pra me formar em História, e no caso da História Antiga, quase endoideci pra tentar entender como se monta um quebra-cabeça onde falta a maioria das peças. E meus alunos de 1º ano, jovens de 15 ou 16 anos, compartilham comigo dessa crise na tentativa de entender as primeiras civilizações, das quais sobrou tanto e ao mesmo tempo tão pouco.
Pra além do debate entre evolucionismo e criacionismo (que é óbvio do ponto de vista científico), nos cabe estudar o que a humanidade anda fazendo pelo planeta nesses anos de ocupação.  Não tenho a pretensão de explicar o sentido da vida humana, nem o que acontece depois da morte, não faço idéia de nada disso, nossa humilde tarefa é olhar as evidências que existem sobre o passado e revirá-las pra entender o que teria acontecido. É um trabalho simples e que infelizmente paga mal.
O deputado-pastor é membro da Assembléia de Deus, igreja pentecostal fundada no Brasil por missionários escandinavos, que possui pastores como Silas Malafaia, Samuel Ferreira e tantos outros que tem se destacado contra os direitos das mulheres e dos homossexuais.  Seus membros defendem a submissão das mulheres aos homens, vêem a homossexualidade como um desvio pecaminoso e acreditam literalmente em Adão e Eva, apesar das evidências científicas. Alguns anos atrás, as mulheres dessa igreja eram proibidas inclusive de se depilar, cortar os cabelos ou usar calças.
Mas a Assembléia de Deus não é o problema, toda religião tem o direito de “achar” o que quiser. Não me importa se o transe religioso é mediúnico, fruto de um orixá, ou se é originado no “Espírito Santo”, cada um pode fazer o que quiser em seu terreiro ou igreja. Meu problema é o fantasma de Marco Feliciano.
Porque? Por que Marco Feliciano não é só um pastor. Ele é também deputado, e como deputado-pastor ele pretende adequar o mundo segundo a visão de sua igreja, que representa menos de 5% da população brasileira.  Esse pastor, eleito deputado, tornou-se presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, cujo objetivo é justamente debater e fiscalizar questões referentes aos direitos humanos.
Aí que está o problema. Uma das tarefas dessa Comissão é a preservação e proteção das culturas populares e étnicas do País. Logo, a “preservação” e proteção” das culturas de origem africana também estão a cargo desta comissão. Agora vejam o que disse Marco Feliciano sobre a África no Twitter:
 
“Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss”
 
Primeiro não é fato que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé” (pergunte para algum paleontólogo). Em segundo lugar, a “maldição da África” vem na verdade dos séculos de colonialismo e imperialismo, quando europeus pilharam e repartiram o continente africano em nome do “deus” cristão ou da “civilização” ocidental, um processo bem mais recente que aqueles retratados na Bíblia.
Pior ainda, o sujeito é contra a “polêmica”. Como se ensina ou se estuda História sem polêmica?
E é por isso que Marco Feliciano me atrapalha. Me mato pra tentar explicar e debater os processos históricos e o cara me fala uma asneira dessas, sem ter lido qualquer livro sério sobre o assunto.  Diz que os problemas da África são fruto de uma “maldição” e ainda por cima ganha um dinheiro que eu nunca vou ver.
Tá lá escrito em Gênesis (capítulo 9, versículos 18-29): Depois do dilúvio, Noé planta uma vinha, bebe do vinho, fica bêbado e tira a roupa em plena tenda. Aí seu filho Cam acha graça e conta para seus irmãos. Depois que se recupera, Noé fica sabendo do vexame e amaldiçoa a linhagem de Cam, que mitologicamente daria origem aos africanos.
Um deputado usar esse mito pra explicar a situação do continente africano me faz repensar a opção de ser professor de História. Faço o que? Apresento algumas evidências? Convido ele pra uma aula? Peço pra ele assistir mais Discovery Channel? Acho que nada disso adiantaria, o papel que ele exerce é muito mais lucrativo.
Parece absurdo, mas o cara ainda é da base política do governo Dilma, e seu partido escolheu esse cargo porque partidos de “esquerda”, como PT e PCdoB, simplesmente não deram importância à Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Talvez os poucos recursos destinados à Comissão digam algo sobre isso.
É bom notar que Marco Feliciano não representa, graças a Deus, a maioria dos evangélicos, e diversas igrejas protestantes históricas têm severas críticas aos seus métodos e crenças. Em mais de uma vez, seu proselitismo místico foi desmascarado por suas próprias contradições, demonstradas fartamente em vídeos (dêem uma olhada nesse exemplo http://www.youtube.com/watch?v=iUscavZL55w).
Enfim, Marco Feliciano me assombra, e enquanto ele for deputado vou me preocupar com o ensino da História, seja Antiga ou Contemporânea. Se você não o conhece, pesquise sobre o honorável deputado, e veja por você mesmo. Deus nos proteja!
 
 
*Bruno Magalhães, formado em História pela Universidade de São Paulo, é professor efetivo e leciona a disciplina de História na Escola Estadual Prof. Carlos Aires no Grajaú, Diretoria de Ensino Sul. (post originalmente publicado em http://historiaprofbruno.blogspot.com.br/2013/03/marco-feliciano-atrapalha-minhas-aulas.html)

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